Entrevista com o fã e coleccionador: Filipe Augusto Chamy Amorim Ferreira

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco.

Filipe Augusto Chamy Amorim FerreiraPara começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente?
Filipe Chamy: Nasci em São Paulo (Brasil), cidade onde moro até hoje, em 1987. Estudo Direito há cerca de quatro anos, mas ainda não sei se seguirei a carreira jurídica. Nunca fui de muitos méritos académicos, excepto quando participava de concursos de redacção na escola. Acredito que saber ler e escrever é um dos pressupostos para uma realização plena.

Quando é que teve início esta paixão pela Banda Desenhada, em especial pelo Tex?
Parte da colecçãoFilipe Chamy: Sempre gostei de histórias em quadradinhos. Não sei direito quando isso me conquistou, creio que por volta dos seis anos, talvez menos. Sempre tive uma vida essencialmente normal, por isso necessitava de um refúgio escapista, uma brecha para viver em outros mundos. A literatura e os quadradinhos cumpriram essa função. Mais tarde, o cinema também ocuparia esse espaço. Mas o facto é que preciso de imaginação, fantasia. Isso fascina-me de uma maneira imensurável. Não suporto o pensamento de uma existência puramente prática, sem sonhos, sem esperanças, humor. Admiro tudo o que fuja à realidade ou que distorça a ‘verdadeira’ percepção das coisas como as vemos. Quadradinhos representam a inexistência de limites do poder da mente, pois com eles viajamos, exploramos áreas desconhecidas das nossas emoções e visualizamos criaturas diferentes de nós, mas nas quais nos espelhamos (e das quais somos talvez o reflexo). Tex Willer é um personagem atemporal porque permite que cavalguemos junto a ele e seus pards, rindo de suas tiradas sarcásticas e vibrando a cada golpe desferido nos oponentes. É uma espécie de companheiro ideal, sempre podemos confiar nele.

A colecçãoPorquê o Tex e não outra personagem?
Filipe Chamy: Porque eu fui ‘envolvido’ inconscientemente no mito do personagem. Em outras palavras, por ser um fumetto bem vendido e conhecido, tive maior acesso a ele, no princípio. Desde quando pequeno via em bancas, ouvia falar, mas nunca havia lido. Só havia comprado uma revista, o número 353 da Mythos. Não havia chegado a ler, por alguma inexplicável razão. De qualquer modo, o catalisador da minha texmania foi um amigo do colégio, texmaníaco há tempos, que me incentivou a dar uma chance ao tão falado cowboy. Ele emprestou-me três revistas, as três primeiras aventuras texianas que li (todas publicadas pela Mythos: Tex Anual 4, Almanaque Tex 8 e Tex Ouro 4). A paixão foi imediata e certeira. Nunca mais parei de ler e coleccionar Tex.

Grandiosa colecçãoO que Tex representa para si?
Filipe Chamy: A obstinação de quem sabe ter razão. Há um certo maniqueísmo nas tramas texianas, e, longe de tirar seu encanto, isso contribui para a identificação dos leitores. Pois Tex sempre está certo, e age de acordo com essa convicção, por isso dificilmente erra. É muito difícil encontrar na vida real uma pessoa tão segura de si, que ainda assim possui discernimento para raciocinar com objectividade e frieza. Tex possui tudo isso e vive para corrigir injustiças e solucionar problemas.

Colecções de várias personagensQual o total de revistas de Tex que tem na sua colecção? E qual a mais importante para si?
Filipe Chamy: Nunca contei, mas deve ser um número por volta de 600 ou 700. Somando as edições normais, as especiais e as italianas. Não tenho predilecção por nenhuma, mas as italianas, as com dedicatórias de amigos e as mais raras (como as primeiras edições da Vecchi) são talvez edições mais especiais que a maioria.

Colecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem?

Filipe Chamy: Tudo, mas não tenho quase nada que não os livros e revistas. No Brasil, qualquer acessório ou coisa do tipo é algo virtualmente impossível de se conseguir.

Qual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista?
As edições italianasFilipe Chamy: Difícil. Tenho um carinho por todas da fase áurea de Claudio Nizzi, a época que a Mythos vem publicando actualmente no Tex Ouro. Grandes e épicas aventuras, senso de acção extremamente bem desenvolvido, tramas assombrosamente harmoniosas, Tex valente e durão, todos os pards no auge da coragem e do companheirismo. Por tudo isso, Nizzi será sempre meu argumentista favorito, mesmo que desgoste da maioria de suas histórias actuais. Desenhadores eu gosto principalmente de Villa, Ticci, Fusco e Letteri. Gosto muito também de Nicolò e Civitelli. Para mim, um bom desenhador é capaz de criar um clima que permita ao leitor sentir-se no local retratado, mesmo que abstracto; Ticci, por exemplo, deixa todos os leitores suados e empoeirados após ‘participarem’ de suas histórias. É um Mestre. E um bom argumentista é aquele que nunca subestima o poder de entendimento do seu público.

Quadro com TexO que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos?

Filipe Chamy: O que me agrada mais é o espírito das aventuras, faroeste com aventura, humor e acção. São tramas muito gostosas de ler, personagens carismáticos e situações de conflito que cativam o espectador (ou leitor). É um bálsamo ler uma revista de Tex no metrô, a caminho de casa, após um dia estafante no trabalho. Carregar na mala para uma viagem. Comprar e ler num dia de tédio. É um amigo para todas as horas, que nos entretém sem pedir nada em troca, a não ser um mínimo de atenção. E, se a história for realmente boa, atenção é o mínimo que podemos dar, junto com elogios.
O que me agrada menos, com toda certeza, é a política editorial de Sergio Bonelli, um homem extremamente inteligente mas de pouca visão. Filipe e Jodorowsky, argumentista de banda desenhadaArgumentista brilhante, acabou impossibilitando seus escritores de terem total liberdade para criar, que é a meta que deveria ser objectivada: ao permitir apenas histórias com um certo número de páginas, Guido Nolitta ocasiona um fenómeno cansativo aos leitores, que consiste em esticar histórias demasiado curtas e abreviar histórias que passariam um pouco do número de páginas determinado. A meu ver, isso é terrível, e gera vícios incalculáveis, como omnipresença de personagens desnecessários, passagens descartáveis e saídas abruptas. Tex, obra tradicional, é com certeza quem mais sofre com esse sistema. Seus argumentistas não podem fugir muito do mundo do faroeste, o que já limita bastante seu campo de acção; e, ao escreverem pensando em um número certo a registar, o prazer de inventar pode ser subjugado pela rotina de trabalho. É certo que a Bonelli Comics é uma empresa, e visa a lucros, mas deve-se sempre respeitar os consumidores de tão interessante forma de arte. Sergio Bonelli, ao pensar na praticidade, não pensou em todas essas desvantagens, que, a longo prazo, podem ter reflexos extremamente negativos.

Em sua opinião o que faz de Tex o ícone que ele é?
Edições gigantes e especiaisFilipe Chamy: Sem dúvida alguma, a sua ‘imutabilidade’. Os leitores confiam na total rigidez do carácter do ranger, seus amigos e aventuras. Quase nada muda, no sentido de que sempre podemos esperar os vilões tendo problemas, e os mocinhos, mesmo com mil empecilhos, vencendo todos os obstáculos, cunhando frases espirituosas e louvando valores como a amizade, a bondade e a perseverança. Acredito que Tex é um dos poucos sobreviventes desse tipo de narrativa, já que a Nona Arte vem passando há algumas décadas por um certo revisionismo, que transforma anti-heróis em figuras icónicas e enche as páginas com desilusão e pessimismo. Todo moralismo é inócuo em arte, o que interessa é o produto final; se bem construído, não importa mais nada. Mas o público de Tex é do tipo que se prende ao personagem e o acompanha há décadas, por isso é normal que venha envelhecendo junto a ele. E isso acarreta uma perenidade de ideias, um código definido pelo tempo, que molda o personagem e o faz parecer tão perto de nós. Nunca ninguém vai esperar encontrar um Tex corrupto, mulherengo, covarde. Sempre contamos com seus socos em pilantras, suas vitórias gloriosas, sua integridade.

Suplementos italianos e Tex's Júnior brasileirosPara concluir, como vê o futuro do Ranger?
Filipe Chamy: Compartilho da opinião de Milo Manara, segundo o qual o futuro dos quadradinhos está nas livrarias. Tex sobreviverá em edições de luxo, revistas de coleccionadores, para um público consideravelmente restrito. Nas bancas, durará por algum tempo, mas só conseguirá se manter se reestruturarem todos os seus princípios, o que acho inviável. Os quadradinhos de banca estão rapidamente desaparecendo, e Tex não será excepção. Poderá ainda ser um lançamento mensal, mas nas lojas de quadradinhos, não mais no jornaleiro da esquina. Uma coisa curiosa em Tex é a fidelidade de seus admiradores: quase todos o acompanham todos os meses, buscam completar sua colecção e o apresentam aos filhos. Enquanto essa paixão seguir, Tex continuará firme e forte como o personagem mítico que é, carro-chefe de tantas editoras e um símbolo da honestidade e justiça!

Prezado pard Filipe Augusto Chamy Amorim Ferreira, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.

(Para aproveitar a extensão completa das fotografias acima, clique nas mesmas)

6 Comentários

  1. Ter como começo Chamas de Guerra (mesmo que com outras revistas junto) é um tiro certeiro para virar fã do Ranger.

    Um abração no meu amigo Lipe… saudades cara!

  2. Ótima entrevista, pard Filipe. Suas opiniões são concisas, tem fundamento e me identifico com algumas delas. Mas se há uma coisa que eu fiquei triste foi que as vendas em bancas irão acabar, tomara que não. Saudades das nossas conversas, cara. Valeu!!!
    Matheus Lopes

  3. Ora, ora, ora!!
    Eu não sabia dessa faceta do Filipe!! Sabia que ele era fã do Zagor e do Mister No, mas do Tex …!! Grata surpresa!

    Maria Eddy

  4. Opa! Quem quiser falar comigo, por favor me mande um e-mail, seguindo o que falei para o Lucas! Ando sumido do fórum TexBR, então essa é a maneira mais fácil de me localizar agora!

    Mariolinha, comecei como fã de Tex! Foi a minha porta de entrada no mundo da Bonelli!

    FILIPE CHAMY

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