Entrevista exclusiva com VIRGINIA LETTERI CASTELBRANCO, filha de GUGLIELMO LETTERI

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de Pedro Cleto na formulação das perguntas.

Virginia Letteri CastelbrancoPrezada Virginia, bem-vinda ao blogue português de Tex. Para aqueles que ainda não estão bem identificados, fale um pouco de si, fazendo uma pequena apresentação própria. Onde e quando nasceu? Qual a sua formação? O que faz profissionalmente? Etc..
Virginia Letteri Castelbranco: O meu irmão, Guglielmo Marco e eu, nascemos em Buenos Aires. Crescemos em Roma. Eu deixei a Itália aos 19 anos, residi em França e Inglaterra; um dia resolvi visitar Portugal, um país que os meus pais sempre adoraram e onde viveram durante uns tempos nos anos 60; apaixonei-me pelo país, resolvi ficar e casei com um português em finais dos anos 80. Tenho dois filhos: o Pedro e o Tommaso (Tomás). Em Lisboa licenciei-me em Direito pela Faculdade Clássica, mas não exerço como advogada. Actualmente sou responsável pela central de tradução jurídica de um escritório de advogados em Lisboa.

Tex Willer por Guglielmo LetteriQual a sua relação com uma das grandes paixões do seu pai, a Banda Desenhada, mais precisamente, Tex Willer, a mítica personagem italiana que ele desenhou durante mais de 40 anos?
Virginia Letteri Castelbranco: Arrisco-me a ser politicamente incorrecta e decepcionar alguns, mas devo dizer que a banda desenhada não é nem nunca foi uma paixão minha.
Mas o Tex é diferente; em criança achava que o Tex era um irmão mais velho que vivia algures por ai, que nós nunca víamos em pessoa sendo por isso que o pai passava a vida a desenhá-lo…
De alguma forma, ainda hoje, o Tex faz parte da família. Não é uma personagem da banda desenhada, é uma cara muito próxima e familiar.

Que lembranças você guarda do seu pai, da sua convivência familiar?
Virginia Letteri Castelbranco: O pai era uma pessoa pouco familiar; não era daqueles pais que passam a vida a brincar com os filhos, ensiná-los a andar de bicicleta, pescar ou coisas assim. De certa maneira o melhor da nossa relação com o pai despontou apenas na idade adulta, sobretudo em relação ao meu irmão que ficou a viver em Roma.
Penso que o pai formou uma família sem que isso fosse realmente uma prioridade na sua vida mas depois, ao longo dos anos, foi apreciando a família cada vez mais, até tornar-se avô.
O pai era uma pessoa extremamente reservada; hoje em dia acho que tinha rasgos de genialidade que nunca cultivou (e não me refiro ao desenho); eu, só me apercebi disso mais tarde, já adulta.

Como era Guglielmo Letteri, o homem?
Guglielmo LetteriVirginia Letteri Castelbranco: O meu pai nasceu em Roma nos anos 20, no bairro de “Parioli”. O meu avô era engenheiro e o meu pai, talvez tivesse achado que o curso de engenharia a seguir à escola fosse a escolha natural. Após o terceiro ano, abandonou o curso e foi viver para Veneza onde tocava com o Trio para as tropas americanas; depois da guerra, acho que as fronteiras da Europa começaram a ficar-lhe apertadas e transferiu-se para Buenos Aires.
O pai era um perfeccionista. Reservadíssimo. Extremamente discreto. Muito “Low profile”. Pouco comunicativo.
Mas sobretudo uma negação em termos de “marketing pessoal”. Nunca teve paciência para promover-se …
De resto o pai vivia no mundo dele e pouco descia à terra. Tenho para mim que talvez o decepcionasse e o entediasse a vertente prática do dia a dia; por isso tentava fugir para uma dimensão só dele. Por isso também era alguém de uma distracção quase fatal …
Tinha uma intuição e, uma sensibilidades quase místicas. Havia também nele um lado sombrio. Um lado melancólico, solitário, muito inquieto com o qual era praticamente impossível estabelecer um contacto.

Guglielmo LetteriE o pai?
Virginia Letteri Castelbranco: Não era um pai convencional e talvez fosse até um pai ausente. Não fisicamente ausente, mas emocionalmente ausente. Vivia nesse mundo dele que não conseguia ou não podia transmitir.
Mas quando estabelecia um contacto connosco, esse contacto era intenso, inesperado porque muito diferente do da minha mãe e talvez diferente do que costumam estabelecer a maior parte dos pais com os filhos.
Lembro-me por exemplo de ir com o pai à noite às jam sessions no “Music Inn” um local onde, na Roma dos anos 70, num clima meio improvisado, meio profissional mas sobretudo intrinsecamente boémio, o príncipe Pepito Pignatelli e sua mulher Picchi, eram anfitriões de um grupo fiel de apreciadores daquele género musical, um local onde nasceram alguns dos maiores artistas de jazz italianos.
Para mim, apenas adolescente, a luz difusa do “Music Inn” era um meio sofisticado e intelectual novo, o país das maravilhas, muitíssimo “adulto” e todo a descobrir, a milhões de anos-luz das notas de “Another Brick in the Wall” dos Pink Floyd e “Heroes” do David Bowie, que era o que ouvíamos nas discotecas com os amigos.

O que você aprendeu com ele?
Virginia Letteri Castelbranco: A seguir o meu instinto, que herdei dele.
Mas sobretudo que esse mergulhar na música ou, em geral, nos nossos pensamentos, naquele mundo só nosso, transporta-nos para um lugar mágico, maravilhosos porque exclusivamente nosso, mas que ao longo da vida podemos vir a pagar um preço muito alto por isso porque o mais das vezes quem nos rodeia, quem gosta de nós não consegue mergulhar connosco e seguir-nos, por isso, se não tivermos cuidado, podemos estar a afastar essas pessoas.

Crystal Trio - Guglielmo Letteri, Carletto Loffredo e Umberto Cesari.Seu pai, foi um viajante incansável que, antes de se tornar desenhador de quadradinhos, teve diversas ocupações entre as quais avulta a de músico de jazz, com discos gravados como integrante do Crystal Trio, com Carletto Loffredo e Umberto Cesari. O que nos pode dizer dessa outra paixão do seu pai: o jazz?
Virginia Letteri Castelbranco: Pois; a música, muito mais do que a banda desenhada foi a paixão do meu pai. Penso que a música fosse, verdadeiramente, a única coisa que penetrava essa personalidade fechada.
Em criança por vezes ouvia o meu pai tocar jazz (guitarra) num intervalo ou outro. Hoje em dia percebo que era um momento de introspecção. Certamente um momento que ele privilegiava.
O Carletto Loffredo tocou, entre outros, com o Romano Mussolini, filho do Benito Mussolini, e com Pepito Pignatelli.
Mas o Umberto Cesari, em particular, foi um capítulo especialíssimo da vida do meu pai. Com o Umberto, o pai partilhava essa vivência intensíssima da música. O Umberto Cesari era um pianista de excepção, um homem com uma personalidade complicada que optou por fechar-se ao mundo. Acontece que a RAI (televisão italiana) tinha convidado o Umberto para tocar com o Trio para a Televisão, sem nunca o conseguir. O meu pai sabia bem que pressioná-lo era impossível. Por isso, em dada altura, a televisão italiana resolveu que se o Maomé não ia à montanha só restava a montanha ir até ao Maomé e, com a organização impecável de Carletto Loffredo, instalou-lhe um estúdio de gravação em casa para fazerem o concerto a partir daí. E assim foi.
O pai e o Umberto Cesari – que muitos achavam um homem lunático e intratável -, tinham em comum aquele lado fechado para o mundo e aberto apenas para a música.

Guglielmo LetteriVocê tinha um contacto frequente com ele, ou não, pelo facto dele viajar muito?
Virginia Letteri Castelbranco: O pai viajou muito de facto, Albânia, Inglaterra, França, América do Sul, Canárias, Portugal, Espanha. Durante uns tempos viveu em Veneza antes de estabelecer-se em Buenos Aires onde conheceu a minha mãe.
No entanto, realizou a maior parte das viagens antes de eu nascer, por isso não interferiram em nada com o contacto com os filhos.

O que nos pode dizer da passagem do seu pai pelo nosso país?
Virginia Letteri Castelbranco: Os meus pais adoravam Portugal. Nos anos 60 viveram em Lisboa, perto do Jardim das Amoreiras. Mais tarde, quando já residíamos em Roma, passámos também um ou dois verões aqui, numa casa na Marginal, na zona do Estoril.
Acho que o que o meu pai mais gostava de Portugal era a serenidade do seu povo e um certo ambiente vagamente tropical e descontraído que também me fascinou a mim quando, nos anos 80 regressei pela primeira vez em adulta.
Nos anos que se seguiram então era o pai que aproveitava o facto de eu viver no Estoril para vir até Portugal matar saudades.
Arrastava-nos para os restaurantes da zona para comer peixe, que adorava, e entretinha-se a mimar os netos.

Guglielmo LetteriE da passagem pelo Brasil, já que muitos dos nossos leitores são brasileiros?
Virginia Letteri Castelbranco: Na altura em que o meu pai viajou pelo Brasil não era nascida e por isso sei pouco. O que posso dizer é que, mais uma vez, era a música que acho que desempenhou um papel fundamental na relação entre o meu pai e o Brasil. O Vinicius de Moraes, Tom Jobim, o João Gilberto. Nasci a ouvir o “Samba de Uma Nota Só” e “Desafinado”.
Lembro-me de ver a cara do João Gilberto nas capas dos discos no estúdio do meu pai desde que nasci. O meu pai adorava os sons da bossa nova.
Curiosamente o João Gilberto faz-me lembrar o meu pai. Quero dizer mesmo fisicamente até. E depois por causa daquela sofisticação do gosto musical, a forma absorta como ele toca a olhar para a guitarra, quase debruçado sobre as cordas, essa intimidade com a música…

Como foi que o seu pai chegou a autor de Banda Desenhada? Por vocação ou por necessidade?
Virginia Letteri Castelbranco: Acho que não foi nem uma coisa nem a outra. Foi uma situação que foi ter com ele e não o contrário. Por outro lado, o meu pai não era o género de ficar fechado num escritório, sempre no mesmo espaço, sujeito a horas certas, por isso, deve ter achado interessante a liberdade que o trabalho lhe proporcionava; o facto de poder trabalhar às horas que entendia, onde entendia, da forma que entendia e de poder conciliar isso com a música. Às vezes trabalhava pela noite dentro, sempre com o jazz ou a bossa nova como música de fundo.

Arte de Guglielmo LetteriEle mostrava os seus desenhos à família ou guardava o seu trabalho para si?
Virginia Letteri Castelbranco: Uma vez idealizada a personagem pelo autor do guião, creio que a concretização gráfica dessa personagem coubesse ao meu pai. A minha mãe participava bastante nessa tarefa, especialmente nos primeiros tempos e sobretudo relativamente às personagens femininas. Era a única pessoa que participava no trabalho do meu pai.

Alguma vez ele incentivou (ou não) os filhos a seguirem as suas pisadas?
Virginia Letteri Castelbranco: Não, incentivar propriamente nunca. O meu irmão em tempos considerou essa hipótese, tinha algum jeito, mas rapidamente reparou que a sua verdadeira vocação era o direito e não a banda desenhada. Hoje em dia é advogado em Roma. Eu, pelo meu lado, licenciei-me em direito em Lisboa e trabalho também na área jurídica. Nunca vimos a banda desenhada como uma opção profissional. No fundo acho que era qualquer coisa que se ajeitava perfeitamente à maneira de ser do meu pai pela liberdade que lhe deixava mas que nunca teve muito interesse para nós.

Auto-retrato de Guglielmo LetteriSabe de alguma história especial de G. Letteri relacionada com Tex?
Virginia Letteri Castelbranco: Apenas que muitas vezes desenhava bocadinhos de Tex aqui e acolá em bocados de papel nos restaurantes, bancos ou onde quer que fosse que lhe calhava encontrar fãs que lho pediam.
Também houve um miúdo, acho que era dinamarquês, que um dia lhe mandou um envelope com uma cartinha amorosa. A questão era que o miúdo dizia que juntava um selo dentro do envelope para o meu pai não ter de gastar dinheiro, caso o meu pai decidisse mandar-lhe um desenho, que era um grande desejo que ele tinha…

Que autores frequentavam com maior assiduidade a vossa casa?
Virginia Letteri Castelbranco: O pai era amigo do Hugo Pratt, autor de Corto Maltese. De resto, não me lembro de mais nenhum que fosse especialmente próximo.

Guglielmo Letteri com os seus netos portuguesesSe pudesse falar alguma coisa para todos os inúmeros fãs do seu pai, o que você diria?
Virginia Letteri Castelbranco: Apenas que fico muito contente e que desconhecia que o meu pai tinha fãs em Portugal ou no Brasil. Tentei dar uma imagem do meu pai que sei ser um bocado inédita mas que reflecte outras facetas que não a do desenhador. Para nós filhos, no fundo o Tex foi o pano de fundo de uma vida que andava à volta da música, da família e, mais tarde, dos netos…

Caríssima Virgínia Letteri Castelbranco, em nome do blogue português do Tex, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

13 Comentários

  1. Interessantíssima entrevista com a filha de um dos desenhadores de TEX que mantiveram uma relação mais profunda e duradoura com a personagem, mas que paradoxalmente era também um dos mais desconhecidos, na sua faceta social e pessoal.
    Foi, de facto, um grande achado do blogue português do TEX este contacto com Virginia Letteri, que, no seu saudoso, emotivo e sincero testemunho, nos consegue dar um retrato, em toda a plenitude, do homem por detrás do artista e do artista fora do seio familiar.
    Ilacção que podemos extrair: muitas vezes a personalidade de um artista revela-se não pelo que diz (ou disse) sobre si próprio, mas pelas vivências que partilhou com os seus familiares e amigos mais próximos.
    Parabéns à entrevistada e também aos entrevistadores pela acuidade na formulação das perguntas.
    Jorge Magalhães

  2. Depois de ler esta bela entrevista, fiquei bastante emocionado. Na verdade, muito do que aqui se falou de Letteri como homem e pai diz bem de uma personalidade que sempre desejou manter-se longe das luzes da ribalta. Homem reservado, personalidade sincera, eis um dos homens que ajudaram a fortalecer o mito Tex.
    Parabéns a todos os que estiveram por detrás desta bela entrevista e testemunho.

  3. Ai o Letteri! Que saudades!

    Sinto muito a falta daquele traço maravilhoso! A par de Nicoló são os dois desenhadores de quem mais sinto falta!

    Quanto a Virginia é uma mulher de sorte! Pelo percurso de vida, pela forma como encara o mundo… quem sai aos seus… não degenera!

    Mais uma vez o blog do Tex continua a surpreeender-nos!

  4. Que maravilha de entrevista. Um papo belo e delicioso que a muito não vejo. Parabéns pela gostosa e rica entrevista que nos fez conhecer muito mais desse gênio da banda desenhada. Obrigado.

  5. Caro Zeca, mais uma vez nos brinda com uma grande entrevista.
    Como fã que sou de Letteri felicito a Virginia por ter tido a honra de ser filha de um grande profissional. Ela deve saber que seu pai deixou um legado imortal para todos os que amam a banda desenhada e em especial TEX. Parabéns a Virginia e obrigado por nos contar um pouco da intimidade de um homem que soube cativar uma legião de fãs com seu trabalho.
    Obrigado ao Blog por mais esta entrevista.

  6. Não sou um grande fã do trabalho dele com Tex, confesso, mas é preciso admitir que Guglielmo Letteri foi uma importantíssima coluna de sustentação do personagem, e se Tex é o que é hoje, deve-se também ao trabalho que este competente artista lhe dedicou em tantos anos. É ótimo poder conhecer mais sobre a vida de Letteri, e essa entrevista nos proporcionou esse privilégio. Parabéns ao blog do Tex!

  7. Espetacular entrevista. Parabéns!
    Você é um dos maiores especialistas e colaboradores do nosso Ranger no mundo.

  8. Caro Zeca, parabéns por essa belíssima entrevista, por nos fazer conhecer, mais um pouco, através da filha dele, desse mito que foi Guglielmo Letteri. Como imaginar as histórias de Tex nas cidades mexicanas ou com o bruxo El Morisco, sem o brilhante traço de Letteri. Para mim com certeza ele foi e sempre será um dos grandes.

  9. O que tenho a dizer é que acompanho o Tex desde o começo e os desenhos do Leterri (sempre fui fã de carteirinha do Ticci e Galep) nunca me cativou como leitor e colecionador mas que ele foi fundamental para o sucesso do Tex ninguem pode negar, mas fica a minha opinião o Tex leterriano nunca me cativou, e parabens pela entrevista meu caro Zeca.

  10. O blog do Tex sempre a surpreender-nos! Uma super-entrevista, muito interessante. Orlando Silva

  11. Ótima entrevista da bela filha desse grande artista adorado pela maior parte dos fãs de Tex!
    A Virginia talvez ainda não saiba aquilatar a emoção que todos nós texianos sentimos ao relembrar o grande G. Letteri, desenhista espetacular que fez os mais charmosos desenhos de Tex, e que desenhou talvez as aventuras mais clássicas do nosso inesgotável ranger!

  12. Só agora tive a oportunidade de ler essa entrevista que descortina um pouco de um dos meus heróis favoritos de quando criança. Não estou a falar só de Tex, mas de Letteri. Foi com 6 ou 7 anos que aprendi a desenhar copiando seus desenhos até me aprimorar. Bela entrevista. Que falta ele nos faz.

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