SECRET ORIGINS: TEX CLASSIC 7

Por Saverio Ceri [1]

Sétimo encontro com as “origens secretas” das capas de Tex Classic. Não há muitos antecedentes para descobrir desta vez. O sétimo volume, cuja capa pode ser vista abaixo, republica, a cores, as histórias publicadas nos Albi d’oro 13 e 14 que por sua vez reproduzem as aventuras apresentadas originariamente nos números 37 a 42 da primeira série de tiras de 1949. 

Tex Classic #7 – Una trama infernale

A capa escolhida nesta ocasião vem de um dos dois Albi d’oro reimpressos; de realce, um par de modificações: ao contrário dos anteriores Classic na redacção optaram por vestir Tex com a clássica camisa amarela, seguramente para destacá-lo da parede do fundo, enquanto o tipo “elevado” perde os quadrados da camisa (evidentemente hoje, a 65 anos de distância, já não estão na moda); além disso, a imagem foi descentralizada para a esquerda em relação ao original, provavelmente para reduzir o espaço vazio que se formava naquele lado sem os sub-títulos do álbum original, consequentemente, à direita tiveram de “adicionar” desenho. Como amiúde acontece, entre as duas, o concurso do fascínio é ganho pela capa original, pela qual agradecemos, como sempre, o site www.collezionismofumetti.com.
.

Albo d’oro Tex #14

Se quiserem saber como prossegue a cena, vejam, abaixo, a capa de Tex, l’uono ciclone, álbum de tiras nº 41, uma das histórias republicadas neste Tex Classic nº 7.

Collana del Tex nº 41 – “Tex, l’uono ciclone”

Saverio Ceri

Encontre todas as outras origens das capas de Tex Classic na rúbrica Secret Origins: Tex Classic

[1] Material apresentado no blogue Dime Web em 31/05/2017; Tradução e adaptação (com a devida autorização): José Carlos Francisco.
Copyright: © 2017, Saverio Ceri

 

Patrizia Mandanici está a desenhar uma nova história de Tex, cujo argumento foi escrito por Fabio Civitelli

Patrizia Mandanici

Durante o confinamento a consagrada desenhadora Patrizia Mandanici parou circunstancialmente a sua produção profissional, já que tentou aproveitar o tempo para desenhar ilustrações no papel, tendo em conta que vinha de um longo período a desenhar digitalmente e tinha intenções de voltar a desenhar banda desenhada de forma “analógica”.

Isto porque há poucos meses Patrizia Mandanici voltou a trabalhar numa história de Tex, mas contrariamente à sua primeira experiência (una história breve para o Color Tex desenhada e depois colorida integralmente em digital) desta vez está a desenhar em papel, ilustrando uma aventura mais longa (deverá vir a ser publicada num futuro Almanacco), uma história desafiadora que a fez regressar ao preto e branco, aos lápis e aos pincéis.

Attenti al lupo, arte de Patrizia Mandanici publicada em Color Tex

É inútil dizer o quão feliz está a Patrizia Mandanici no presente, não só porque o western e em particular o Tex foram as coisas que inicialmente desenhou quando era criança (Tex foi a sua grande paixão até aos 12/13 anos como a própria desenhadora confidenciou aqui no Blogue do Tex), mas também porque este compromisso foi o que manteve a desenhadora à tona nestes últimos meses muito complicados, como informa a própria Patrizia Mandanici no seu blogue!

Entre os primeiros desenhos de Patrizia Mandanici estava o western (não foram feitos em 1965, a agenda era antiga, a desenhadora devia ter uns 9 anos)

A desenhadora está a esforçar-se ao máximo, não é suficiente saber ver bem os mestres que desenharam o Tex ou as fotos de documentação, desenhar o personagem Tex e os cavalos são coisas bem mais difíceis do que parecem; basta apenas uma pequena marca fora do lugar e já nada funciona bem, ou pelo menos não muito bem. A solução é desenhar muito, mas muito mesmo, e redesenhar; voltar a observar após uma semana e corrigir – e assim por diante.

Tex de espingarda nas mãos, desenhado por Patrizia Mandanici

Enquanto a história não for publicada a desenhadora não poderá mostrar nada deste seu regresso a Tex, excepto ocasionalmente as ilustrações que fizer nos seus tempos livres, como é o caso deste magnífico Tex mostrado aqui ao lado.

Patrizia Mandanici está a desenhar em folhas que são praticamente no formato A3, da marca Fabiano4 lisos (a desenhadora confidenciou que preferiria papel semi-áspero, mas para os detalhes mais minuciosos temia não conseguir controlar bem o seu estilo). Usa principalmente pincéis descartáveis da marca Pentel, os mais finos que conseguiu encontrar (Brush Sign Pen Artist), e marcadores da Koh-I-Noor Fiber Professional.

Além da inúmeroa documentação fornecida por Antonio Serra (é o roteirista da história, cujo argumento foi escrito por Fabio Civitelli) utiliza há já algum tempo as fotografias que encontra na Internet, sobretudo via Pinterest, já que são muito úteis porque estão cheias de cavalos, cowboys, cidades antigas, paisagens rochosas, etc.

Uma MISSIVA urgente de Tex para José Carlos Francisco na ARTE de Patrizia Mandanici, desenhadora de Tex

Mandanici não abandonou de todo o desenho digital: os esboços realiza-os sempre com Clip Studio Paint, imprimindo-os depois em folhas A3 e através de uma mesa de luz copia-os para as pranchas, definindo o lápis.

Tex e Kit Willer no magnífico lápis de Patrizia Mandanici

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

Em memória de Sergio Bonelli – A homenagem da SBE

[1] Artigo publicado no sítio Internet Sergio Bonelli Editore em 26 de Setembro de 2020.

A 26 de Setembro de 2011 deixava-nos Sergio Bonelli, envolvido desde muito jovem na vida da editora dos seus pais. Recordamo-lo com duas fotografias que o retratam quando criança e a história daquele período contada por Gianni Bono no seu livro  “Os Bonelli”.

6 de Dezembro de 1941 é véspera do ataque japonês a Pearl Harbor, que marca a entrada dos Estados Unidos na guerra, ao lado dos britânicos e dos soviéticos, contra o eixo Roma-Berlim-Tóquio. Vinte e quatro horas mais tarde, o quadro geopolítico do mundo assumia um aspecto muito diferente.

No que diz respeito à banda desenhada e, neste caso, ao clima que reina na Redazione Audace, os pedidos do Ministério da Cultura Popular são muito mais prementes. Eles podem ser encontrados através da longa correspondência estabelecida entre Gianluigi Bonelli e o professor Vito Perroni do MinCulPop, da qual se evidencia que o governante concede a autorização à editora Audace com a condição que “todos os tipos fisionómicos sejam transformados em senso italiano e seja suprimida a banda desenhada do seu catálogo”.

Neste clima de forte controlo político e com uma guerra em andamento, Milão deixa de ser uma cidade segura para trabalhar e viver. Assim, no final do ano a Redacção Audace, composta por Tea Bertasi, Franco Donatelli e Mario Faustinelli, transfere-se da via Rubens para a mais tranquila Lavagna, no litoral da Ligúria, e Gianluigi Bonelli duas vezes por mês visita-os vindo de Milão.

O primeiro ano de actividade da editora encerra com um balanço mais do que positivo. O jornal conquistou uma base sólida de exemplares vendidos que garantiam a continuidade e a segurança económica. A confiança dos leitores e o desejo em apoiá-lo crescia, de número em número.

No Verão de 1943, os eventos precipitam-se e a Redazione Audace de Lavagna encerra. Tea Bertasi e o filho encontram abrigo em Fontanabuona, pequeno centro no interior da Ligúria, enquanto Gianluigi Bonelli, que não quer ir para a guerra, pensa em fugir e vai para a Suíça.

Duas fotos tiradas do álbum de memórias da família Bonelli: a primeira tirada em Lavagna em 1943; a segunda em 1944, durante a estada da Sra. Tea e de Sergio em Fontanabuona, uma pequena localidade do interior da Ligúria.

Texto e imagens retirados de “I Bonelli. Una famiglia Mille avventure“, de Gianni Bono. Publicado pela Sergio Bonelli Editore em 2017.

Uma rua com o nome de Virgilio Muzzi, um dos pais de Tex Willer

Auto-retrato de Virgilio Muzzi

A proposta: dedicar uma rua ao autor que desenhou cerca de 1.500 páginas do Ranger criado por Giovanni Luigi Bonelli.

O jornalista italiano de Casale, Francesco Dionigi (na foto abaixo, à direita) propôs recentemente à Administração Camarária de Codogno (uma comuna italiana da região da Lombardia, província de Lodi, com cerca de 13.950 habitantes) dedicar uma rua ao conterrâneo Virgilio Muzzi “está entre os pais da banda desenhada Tex”.

É de Lodi um dos pais de Tex Willer, uma das mais populares bandas desenhadas italianas, escrito e criado por Giovanni Luigi Bonelli e pelo desenhador Aurelio Galeppini (Galep) em 1948 e publicado actualmente pela Sergio Bonelli Editore.

Jornalista Francesco Dionigi, o autor da proposta

Entre os autores, portanto, também está Muzzi (que desenhou também o número 5 de Diabolik datado de Maio de 1963 e três números de Mister No). No final dos anos cinquenta do século passado (em 1957 começou a se envolver com Tex, ora fazendo alguns desenhos a lápis, ora a arte-final em desenhos de Galep, ora trabalhando a quatro mãos com Francesco Gamba como nas últimas 54 páginas de A Quadrilha do Ás de Espadas) o artista juntou-se a Galep na realização das histórias do célebre Ranger. Os Tex de Muzzi caracterizam-se por um traço muito particular: as suas camisas às riscas e em xadrez e os seus personagens bigoduços.

Dionigi sublinha que  “seria um gesto de estima e reconhecimento, uma década depois da sua morte, ocorrida em Codogno no dia 25 de Fevereiro de 2010, aos 86 anos, dedicar-lhe uma rua com o seu nome. Peço-o ao Presidente Camarário Francesco Passerini“.

A primeira história que Muzzi desenhou integralmente (considerada a sua estreia oficial com o Ranger) faz parte da série denominada “Città d’Oro“ e intitulava-se “Contrabbando“. Ele baseou-se nos textos do criador da série e no actual formato está incluída no álbum “Un’audace rapina“. Nos anos seguintes foram-lhe confiados outros episódios de Tex até ao número 183 “Caccia all’uomo“, publicado em Janeiro de 1976, do qual desenhou somente 18 páginas e com o qual terminou o seu empenho na série.

O Tex de Virgilio Muzzi

É preciso dizer também que trabalhou em Tex principalmente em parceria com Galleppini, que tinha a tarefa de realizar apenas o rosto do Ranger. A colaboração durou dezasseis anos. Ao todo o desenhador italiano desenhou cerca de 1.500 páginas, num total aproximado de doze mil vinhetas.

Os quatro pards na Arte de Virgilio Muzzi

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

Entrevista com o fã e coleccionador: Everson Costa

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco.

Para começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente?
Everson Costa: Salve Pards! Meu nome é Everson Costa, eu nasci em São Bernardo do Campo, mas atualmente eu moro em Diadema, São Paulo. Tenho 23 anos e atualmente eu trabalho como encarregado de loja em um comércio de festas e embalagens.

Quando nasceu o seu interesse pela banda desenhada?
Everson Costa: Eu coleciono quadrinhos há mais ou menos 7 anos, comecei lendo DC/Marvel, mas o tempo vai passando e fui achando todas essas leituras maçantes, tudo igual que já não tinha mais graça, aí resolvi buscar novos horizontes ou no caso, novas pradarias hehehe. Meu interesse por Tex nasceu após um vídeo que vi em um canal no YouTube, de cara já me chamou a atenção, pela arte das páginas, que se não me engano foi de uma das edições coloridas, aquilo me encheu os olhos.

Quando descobriu Tex?
Everson Costa: Eu pude realmente conhecer Tex, quando eu pude comprar a edição número 5 de “Tex Willer: As Aventuras de Tex quando jovem”, a partir dali foi só amor. Cada página, cada quadro, com todos aqueles detalhes, encheu meus olhos e meu coração também, hahaha.

Ainda lembro de um quadro específico de um sequência de ação, onde Tex após atirar, no quadro seguinte tem um movimento dele recarregando a arma, ali já me conquistou.
Além de tudo isso, a personalidade de Tex também me chamou muito a atenção, não tem como não gostar deste personagem, mesmo sendo muito casca grossa, você consegue ver a humanidade e o quanto especial é esse personagem! E um último detalhe que me conquistou, foi o nome e seu cavalo: Dinamite! Que nome espetacular para um cavalo! Hahaha.

Porquê esta paixão por Tex?
Everson Costa: Minha paixão por ter foi à primeira vista, ou no caso, “à primeira leitura”. Sinceramente eu não estava esperando tanto, mas fui MUITO surpreendido, tanto pela qualidade, tanto pelos desenhos, tanto pelos personagens. Quando leio Tex, não importa qual edição ou quando eu leio, sempre parece que estou lendo pela primeira vez. As aventuras pelas pradarias, pelo deserto, pelas cidades, pelas tribos, tudo é sensacional, você se sente ali junto com Tex e Carson. A personalidade de Tex também é sempre mantida, não vivem fazendo reboot no personagem como em histórias em quadrinhos da Marvel e DC.
Outra coisa que contribui também por esse amor, é a própria comunidade de fãs da obra, nunca vi um grupo tão unido, que compartilham informações, até doam quadrinhos para quem está começando, amo ver essa interação também.

O que tem Tex de diferente de tantos outros heróis dos quadradinhos?
Everson Costa: O que diferencia Tex de outros quadrinhos, no meu ponto de vista, são vários, por exemplo: Tem quadrinhos que você lê e até se diverte, mas no final sente que não mudou nada em sua vida, ao contrário de Tex, que em toda história você aprende algo, Tex sempre passa uma lição de honra, um aprendizado.

Outro fator também, foi um que até citei mais acima, onde que: não importa qual roteirista assuma a história, nenhum muda a personalidade dos personagens, eu admiro muito isso, porque em outras histórias acabam mudando tudo e você fica totalmente perdido.
E por último, Tex não tem histórias ruins. Geralmente os quadrinhos normais tem edições ruins ou péssimas, que fica até difícil de ler, já Tex não, toda história de Tex é ótima, você pode ir de olho fechado em qualquer história, que você irá gostar.

 Qual o total de revistas de Tex que você tem na sua colecção? E qual a mais importante para si?
Everson Costa: Atualmente eu tenho 115 edições de Tex. Para mim, todas são importantes, mas o meu xodó é uma edição que eu consegui em uma visita a uma loja de quadrinhos de um amigo meu. É uma edição que foi encadernada em capa dura por um colecionador, essa edição compila do capítulo 316 a 320 da editora Globo. Uma edição que cuidarei para sempre.

Colecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem italiana?
Everson Costa: Coleciono tudo o que é acho e tenho condição de adquirir do personagem.

Qual o objecto Tex que mais gostaria de possuir?
Everson Costa: O item que eu mais gostaria de ter em minha coleção, seria uma estatueta de Tex ou de algum outro personagem do nosso quarteto.

Qual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista?
Everson Costa: Eu tenho duas histórias favoritas, uma é “O Casamento de Tex” e a outra é “A Morte de Lilyth”, elas são muito marcantes. Meu roteirista favorito é o Mestre Gianluigi Bonelli e o outro Mestre é o desenhista, Aurelio Galleppini.

O que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos?
Everson Costa: O que me agrada mais em Tex, com certeza são as histórias e os personagens, a ambientação também e como você pode também começar a ler Tex facilmente.
O que menos me agrada, é que às vezes o Tex tem tanto destaque, que os seus companheiros até ficam um pouco de lado, claro que Tex tem que ter mais destaque por ser o protagonista, mas às vezes parece que deixam seus companheiros mais burrinhos para que Tex pareça mais inteligente, pode ser uma impressão errada minha.

Em sua opinião o que faz de Tex o ícone que é?
Everson Costa: O que faz Tex um ícone é sua personalidade honrada, os ensinamentos que ele passa, coragem, justiça, justo, tudo isso aplicado em ótimas histórias. Seus Pards também fazem sua parte, com o velho Kit Carson e seu pessimismo, com Kit Willer e sua bravura e com Jack Tigre um silencioso Guerreiro.

Costuma encontrar-se com outros coleccionadores?
Everson Costa: Eu nunca me encontrei com colecionadores, eu não conheço nenhum que more perto, mas eu gostaria de conhecer.

Para concluir, como vê o futuro do Ranger?
Everson Costa: Eu vejo um ótimo futuro para o personagem, a todo momento vejo novos leitores se interessando. Também pela sua tiragem de histórias, sempre tem algum formato saindo, o que facilita o contato com as histórias. Sua personalidade também é um incrível ponto, o que cativa qualquer leitor. Todo mundo devia conhecer Tex e ver o quão maravilhoso é esse universo. Eu vejo um futuro próspero para Águia da Noite. Eu irei repetir uma fala minha a qual eu disse quando comecei ler Tex: “Eu irei ler Tex para sempre!”.

Prezado pard Everson Costa, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

A cor em Tex: um longo caminho a percorrer

Artigo de Pedro Cleto*

A cor em Tex: um longo caminho a percorrer, por Pedro Cleto – Página 21

… eu, como todos sabem, continuo a me declarar fervoroso partidário do desenho em preto e branco. Só que, com o passar do tempo, tornei-me mais complacente, mais sensível aos pedidos e aos gostos modernos dos leitores.

Sergio Bonelli[i]

Eu, como Sergio Bonelli – passe a vaidade da comparação – também prefiro Tex a preto e branco. Possivelmente porque o descobri assim, muito naturalmente porque por Tex têm passado – continuam a passar – excelentes artistas, cultores do preto e branco, de certeza porque é assim que Tex tem sido idealizado pelos seus desenhadores.

O que não invalida que não perceba, aceite e até aplauda a vontade que Sergio Bonelli expressava de ir ao encontro dos “pedidos e gostos modernos dos leitores” actuais.
Só que, até agora, isso tem sido feito de forma equivocada.
Uma breve resenha histórica, antes de entrar propriamente no tema.

Na origem, Tex era a preto e branco.

A razão principal desta opção – acredito eu – era baixar custos e tempos de produção. Tempos, porque era mais rápido para o(s) autor(es) produzir(em) as suas bandas desenhadas a preto e branco; custos, porque a impressão a cor faria disparar o preço das edições.

E – muito justamente – as edições Bonelli – primeiro de Gianluigi, depois do seu filho Sergio – sempre se quiseram e defenderam de cariz popular, como projecto editorial que tem no preço – baixo – uma componente decisiva – daí, possivelmente, a longevidade de Tex (e da editora) e o sucesso redobrado das suas sucessivas edições.

Tanto quanto sei, a cor em Tex surgiu pela primeira vez há já muitos anos – Fevereiro de 1969, mais exactamente – para tornar diferentes, mais apetecíveis, mais apelativos, festivos, os números centenários.

Desconheço – alguém ainda saberá? – se na época foram colocadas sobre a mesa outras hipóteses para assinalar essas edições redondas: números com mais páginas, com oferta de brindes, posters ou separatas. Mas, diz-nos a História das edições Bonelli, que foi a cor o aspecto distintivo introduzida no número #100 de Tex e, desde então, recorrente a cada oito anos e tal.

Pensando em posteriores (re)publicações, em eventuais traduções, apenas porque era esse o modelo ou até porque no momento da criação ainda não era certa qual a história a introduzir no número centenário, a verdade é que as histórias desses números sempre foram desenhadas pelos autores como se destinadas a publicar a preto e branco, levando depois uma ‘cobertura’ colorida – atractiva, pela diferença, para quem lia Tex sempre a preto e branco – mas pouco trabalhada em termos de verdadeira aplicação da cor.

Dando um longo salto temporal, vamos até Fevereiro de 2007, quando a Sergio Bonelli Editore criou uma parceria com o jornal La Repubblica e revista L’Expresso para o lançamento da Collezione Storica a Colori, distribuída semanalmente com aquelas duas publicações, a preço acessível – mais uma vez! – com o propósito de publicar as histórias iniciais de Tex, em grossos volumes, mas desta vez a cores. Pensada inicialmente para ter apenas 50 tomos, teve um sucesso tal – no conjunto acabaria por vender 27 milhões de exemplares e render 186 milhões de euros! – que se prolongou no tempo, acabando por atingir os 239 tomos, republicando todas as histórias da série principal de Tex disponíveis até à data[ii].

Mais uma vez, a cor foi aplicada sobre as pranchas desenhadas a/para preto e branco, sendo equiparável às das edições especiais centenárias. Naturalmente. Era impensável redesenhar quase 60 anos de histórias aos quadradinhos para as preparar para a cor. Mas teria sido possível trabalhá-la melhor. Possivelmente, o facto de a colecção ter sido pensada limitada a apenas 50 volumes não justificava uma aposta diferente aos olhos do editor e depois não fez sentido modificá-la quando já estava em curso.

A cor em Tex: um longo caminho a percorrer, por Pedro Cleto – Página 22

Podendo haver entre os compradores – a par de muitos antigos leitores que coleccionaram Tex por nostalgia e pela hipótese de terem toda a sua longa saga aventurosa num mesmo formato – novos leitores, atraídos pela cor, Sergio Bonelli rendido “diante das entusiásticas reacções suscitadas pela edição histórica da saga texiana distribuída como suplemento do jornal italiano La Repubblica e da revista semanal L’Expresso[iii] decidiu avançar com uma colecção colorida regular, “uma série especialíssima de Tex” [iv].

Nasceu assim, em Agosto de 2011, Color Tex, edição anual que visava – digo eu – por um lado aproveitar a embalagem da Collezione Storica a Colori e, por outro, avaliar o mercado com o intuito de perspectivar avanços mais significativos nesta área.

Color Tex que entretanto já passou a semestral – prova da boa resposta dos leitores – mesmo que não tenha atingido as vendas da revista regular – e o preço mais elevado poderá, sem dúvida, ser um dos principais factores para esta situação.

Mas não será certamente o único porque aqui, em minha opinião, a Sergio Bonelli Editore falhou, continuando a aplicar nestas edições – criadas para a cor – o seu colorido tradicional, quase mecânico, plano, monótono, sem definição de volume nem de sombras, por vezes sobreposto nas manchas de negro que nos originais criavam contrastes, perspectiva e marcavam as distâncias.

E se a intenção era atender aos “pedidos e aos gostos modernos dos leitores”, Color Tex fica claramente a perder quando comparada – em termos de cor – com os comics americanos e os álbuns europeus que eles – possivelmente – lerão e de onde lhes vem a apetência pela cor. Algo que o próprio Pasquale Del Vecchio, que está a trabalhar num novo Color Tex que será editado em 2015, reconheceu durante a conversa/conferência que teve lugar durante a 1.ªMostra do Clube Tex Portugal, em Anadia, em Agosto último. Afirmou mesmo que lhe foi pedido que desenhasse normalmente, como se a edição fosse ser editada a preto e branco, o que parece um contra-senso, mais a mais em relação a um autor que está habituado a trabalhar de forma diferente para o mercado franco-belga.

Mas, reconheço facilmente que nem tudo tem sido negativo.

Se o número inicial, E chegou o dia[v] me desiludiu, já Os Bandidos da Neblina[vi], de Ruju e Cossu, deu um passo significativo nesse sentido.

A escolha de Ugolino Cossu para o desenho foi um trunfo, uma vez que o seu traço fino, pormenorizado mas limpo e com muitos espaços livres para o desenho respirar, revelou-se ideal para sustentar o trabalho de cor, que surge ao leitor mais distante das habituais cores mecanizadas Bonelli e mais próximo de um verdadeiro trabalho de colorista.

No Color Tex seguinte, O Xamã Demoníaco[vii], o traço duro e mais agreste de Ticci, pleno de manchas de negro para reforçar os contrastes desejados – a preto e branco… – que melhor realçam os ambientes selvagens em que a acção decorre, voltou a revelar-se pouco propício para a aplicação da cor.

Se depois ainda não tive oportunidade de ler ou sequer folhear os números seguintes, pelas páginas já disponibilizadas online, parece haver motivos para alguma satisfação. Na verdade, algumas das páginas do Color Tex #4[viii], mostram uma cor bem mais conseguida, com diversas gradações e sombras e volumes a surgirem da sua aplicação.

O mesmo se passa com o Color Tex #5[ix], onde a assinatura de Civitelli no desenho é garantia de um traço fino e detalhado, com mais espaço livre para o desenho se estender, o que, a par da utilização da cuidada técnica de pontilhado, possibilita que a cor não choque com manchas de preto e surja mais brilhante a atractiva.

Em resumo, apesar de pequenos passos na direcção certa, até agora os exemplos mais conseguidos da utilização da cor em Tex estão mais relacionados com o tipo de traço utilizado no desenho do que propriamente com a técnica utilizada na sua aplicação.

Ou seja, em termos de cor, Tex tem ainda um longo caminho a percorrer. Saltar algumas etapas e aprender com quem já o faz (tão) bem, só trará vantagens, a curto e médio prazo.

A cor em Tex: um longo caminho a percorrer, por Pedro Cleto – Página 23

[i] Do editorial do Tex Colorido #1, Mythos Editora, Abril de 2012
[ii] E sensivelmente no momento de fecho deste texto em termos da sua escrita, a 2 de Outubro de 2014, iniciou-se em Itália um prolongamento da colecção, que terá mais 17 volumes e trará as aventuras de Tex na Collezione Storica a Colori até ao momento presente.
[iii] Do editorial do Tex Colorido #1, Mythos Editora, Abril de 2012
[iv] Idem
[v] Idem
[vi] Tex Colorido #2, Mythos Editora, Abril de 2013
[vii] Tex Colorido #3, Mythos Editora, Maio de 2014
[viii] Color Tex #4, Sergio Bonelli Editore, Novembro de 2013
Este número introduz uma nova fórmula: em lugar da aventura longa, inclui quatro histórias curtas: L’uomo sbagliato, de Tito Faraci e Giampiero Casertano; Un covo di belve, de Pasquale Ruju e Sandro Scascitelli; L’ultimo della lista, de Gianfranco Manfredi e Stefano Biglia; La valle sacra, de Mauro Boselli e Nicola Genzianella.
[ix] Color Tex #5, Sergio Bonelli Editore, Agosto de 2014
O regresso da fórmula original com Delta Queen, de Mauro Boselli e Fabio Civitelli.

* Texto de Pedro Cleto publicado originalmente na Revista nº 1 do Clube Tex Portugal, de Novembro de 2014.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima clique nas mesmas)

Vídeo (e fotos): Tex. 70 anos de um mito, em Salerno

Cartaz da Mostra Tex. 70 anos de um mito, em Salerno

A Mostra que percorre os setenta anos  da história do Ranger Bonelliano chegou a Salerno enriquecida por exposições de obras de autores de Campânia (em italiano: Campania: é uma região do sul da Itália, com 5,8 milhões de habitantes e área de 13.670 quilômetros quadrados, cuja capital é Nápoles): Acciarino, Brindisi, os irmãos Cestaro, De Angelis, Della Monica, Nespolino e Prisco.

Após a etapa inaugural em Milão e aquelas sucessivas em Roma e Siena, chegou agora a Salerno a homenagem mais importante alguma vez dedicada a Águia da Noite, para contar a sua extraordinária história editorial através de desenhos, fotografias, materiais raros e por vezes inéditos, em instalações criadas especificamente para o evento.

Exposição Tex. 70 anos de um mito, em Salerno – Foto de Cristina Santonicola

Inauguração da Mostra Tex. 70 anos de um mito, em Salerno – Foto Comicon

A nova etapa da exposição Tex. 70 anos de um mito (18 de Setembro – 18 de Outubro 2020) foi inaugurada na passada sexta-feira, dia 18 de Setembro no Palácio Fruscione, em Salerno, organizada no âmbito do programa “COMICON Extra” e realizada graças ao apoio da região da Campânia. A exposição tem curadoria de Gianni Bono, prestigiado conhecedor e historiador da banda desenhada italiana, em colaboração com a redacção da Sergio Bonelli Editore e da COMICON.

Conferência Tex. 70 anos de um mito, em Salerno – Foto Comicon

Conferência Tex. 70 anos de um mito, em Salerno – Foto de Cristina Santonicola

A Mostra conta a história do sucesso editorial do personagem Tex Willer que, graças ao seu profundo senso de justiça e à sua generosidade, conseguiu, de 1948 até hoje, entrar nos hábitos de leitura dos italianos e tornar-se num verdadeiro fenómeno de fantasia.

Exposição Tex. 70 anos de um mito, em Salerno – Foto de Cristina Santonicola

Exposição Tex. 70 anos de um mito, em Salerno – Foto de Cristina Santonicola

A enriquecer a etapa salernitana da Mostra, há a exposição de páginas originais publicadas nas aventuras do Ranger assinadas por Gianluca Acciarino, Bruno Brindisi, Gianluca e Raul Cestaro, Roberto De Angelis, Raffaele Della Monica, Alessandro Nespolino e Giuseppe Prisco.

Exposição Tex. 70 anos de um mito, em Salerno – Foto Comicon

Exposição Tex. 70 anos de um mito, em Salerno – Foto de Cristina Santonicola

Na Mostra, os visitantes podem admirar, entre os muitos documentos, a primeira vinheta de Tex em várias línguas (inclusive em português), as páginas originais dos mais célebres desenhadores texianos, as fotografias de Aurelio Galleppini e a máquina de escrever de Gianluigi Bonelli: a Universal 200 decorada pelo próprio Bonelli e mantida na sala de reuniões da Editora, com a qual muitas das histórias de Tex foram criadas.

A máquina de escrever de Gianluigi Bonelli, a Universal 200 decorada pelo próprio Bonelli, em Salerno – Foto de Cristina Santonicola

Exposição Tex. 70 anos de um mito, em Salerno – Foto de Cristina Santonicola

Também estão expostas as primeiras páginas de alguns quotidianos que também permitem percorrer setenta anos da história italiana: uma espécie de paralelo entre as aventuras do corajoso Ranger e os acontecimentos ocorridos em Itália nessas sete décadas.

Exposição Tex. 70 anos de um mito, em Salerno – Foto de Cristina Santonicola

Exposição Tex. 70 anos de um mito, em Salerno – Foto de Cristina Santonicola

No espaço comercial da Mostra pode ser adquirido o catálogo Tex. 70 anni di un Mito, produzido pela Sergio Bonelli Editore com introdução de Davide Bonelli, textos de Gianni Bono, Graziano Frediani, Luca Boschi e Luca Barbieri, rico em materiais raros, desenhos e textos que aprofundam os acontecimentos de Tex Willer e da sua vasta história editorial.

Exposição Tex. 70 anos de um mito, em Salerno – Foto de Cristina Santonicola

Exposição Tex. 70 anos de um mito, em Salerno – Foto de Cristina Santonicola

Por último, mas não menos importante, no piso térreo do Palácio Fruscione é possível visitar, gratuitamente, uma Mostra pessoal dedicada  ao percurso artístico e produtivo de Mauro Uzzeo, intitulada FINE PENNA MAI – Histórias que se transformam em Banda Desenhada, Cinema, Música, TV e Animação, em colaboração com o festival Linea d’Ombra. A Mostra aborda o momento mágico da transição entre a escrita no papel e a sua transformação em páginas de banda desenhada, desenhos animados e películas cinematográficas.

Bruno Brindisi na Mostra Tex. 70 anos de um mito, em Salerno – Foto de Cristina Santonicola

Alessandro Nespolino na Mostra Tex. 70 anos de um mito, em Salerno – Foto de Cristina Santonicola

Bruno Brindisi e Alessandro Nespolino na Mostra Tex. 70 anos de um mito, em Salerno – Foto de Cristina Santonicola

A COMICON Extra, da qual Tex. 70 anos de um mito em Salerno faz parte, é um projecto para promover a cultura da Banda Desenhada em toda a região da Campânia. Entre as diversas actividades online e ao vivo, oferece um vasto programa de exposições. A COMICON Extra é uma iniciativa idealizada pela COMICON e realizada graças ao contributo da Região da Campânia. A Mostra Tex. 70 anos de um mito é realizada em colaboração com a Câmara Municipal de Salerno.

Bruno Brindisi na Mostra Tex. 70 anos de um mito, em Salerno – Foto Comicon

Alessandro Nespolino a desenhar na Mostra Tex. 70 anos de um mito, em Salerno – Foto de Cristina Santonicola

O Tex desenhado por Alessandro Nespolino na Mostra Tex. 70 anos de um mito, em Salerno – Foto Comicon

De seguida mostramos dois vídeos realizado aquando da cerimónia de abertura (18 de Setembro, pelas 18:00 horas) onde podemos ver trechos da Mostra, ouvir personalidades presentes e inclusive assistir a uma performance de desenho ao vivo de Bruno Brindisi e Alessandro Nespolino: